quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Quero lhe dizer, filho.

Que de meus irmãos vi trechos de filmes, livros, discos, secos, molhados, laranjas, mecânicas, corpos que falam, escondida atrás da poltrona. Que de minhas irmãs assisti amores, sandálias de tiras, secadores barulhentos, espelhos indecisos, portões e eu te amos. De meus pais ouvi vozes sem brilho, silêncios velados, o som alto da TV e uma resignada ordem das coisas. (Mas no meio disso tudo eu vi amor.) Quero lhe dizer que de mim mesma vi muito e tanto, sem saber o que fazer com. Que de mim mesma escrevi tentando ler. Que do tempo entendi sermos feitos de medos iguais. Que dos fins, vi começos. Que, das férias, vi ilusões. De cortinas que se fechavam, vi se abrirem outras. Que os medos que tenho hoje não são outros dos que me viram crescer. Que os meus quarenta eu não sinto. Que você crescendo dentro de mim era eu junto. Que você crescendo ao meu lado é exemplo. Quero lhe dizer que não sei. Que ao ter você em meus braços, sinto como se soubesse. E esqueço os meus temores para ser o seu farol. Que ser o seu farol acende um caminho dentro de mim. Quero lhe dizer que ao tentar ensinar aprendo de novo – ou quem sabe é a primeira vez. Quero lhe dizer o que quero me dizer. Que você é um amor em mim. É afeto melhorado. Que depois de você a vida é brincadeira leve. Que o perigo de ter você é um risco doce. Que a sua respiração me faz voar para bem longe. Que a minha respiração ofegante coloca vírgulas em mim. Que atropelo as vírgulas em busca dos começos que moram depois dos pontos finais. Quero lhe dizer obrigada pelas vírgulas. Porque ao lhe ensinar sobre elas, vou aprender.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Daninho e Fanquico.

Dani, seu amiguinho da rua, é oito meses mais novo que você. Há mais de um ano vocês brincam juntos todos os dias. (E um ano é boa parte de suas vidas.) De manhã, quando um avista o outro na rua, os dois abrem sorrisos e saem gritando.

Outro dia cheguei em casa e encontrei em cima da mesa o convite para o aniversário de dois anos do Dani. No envelope havia escrito: Para meu primeiro e melhor amigo. Meu coração ficou trêmulo: é sua vida cada vez maior.

Dias depois, Preta, a babá do Dani, tocou a campainha em casa e você ainda não estava vestido pra ir passear. Sugeri que ela subisse com ele. Rápido, você voou pra janela, acenando pra que ele o visse: "Oi, Daninho! É o Canquico!"

Canquico é como ele chama você — se alguém perguntar o seu nome, você sempre responde "Fanquico" (ou "Sanquico"). Mas, como bom amigo mais velho, você se empenha em falar a língua dele.

Amizade começa assim.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Pista.

Você brincando de deslizar o carrinho nas minhas costas. E ainda tem gente que diz que a vida não tem poesia.

Manual do pai solteiro.


Meu amigo Aggeo criou um blog sensacional. Inteligente, texto gostoso e recheado de informações muito úteis. Vou consultar sempre. Afinal, sou pai também.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Gosto retrô.


"A mamãe vai ganhá dineiro pra comprá um fuquinha." Escrevi imediatamente para o Papai Noel. Vamos aguardar, filho.

domingo, 1 de novembro de 2009

Vestindo você.

Chego em casa com você nos meus braços e vou vesti-lo enquanto você dorme. O ritmo das minhas mãos pelo seu corpo canta um amor doído de tanto. Busco seus braços, pernas, pescoço e cabeça com um cuidado silencioso que vela o seu sono, enquanto o meu pensamento voa além da sua pele para chegar ao futuro – não sem antes passear pelo que ficou para trás. O que me dói agora não importa: sou mãe. E é um amor impensado e impensante que conduz meus braços a tomá-lo de novo em direção à cama. Na casa quieta, gritam os meus medos e buracos. Dói o fantasma da minha própria ausência. Embora às vezes eu sinta que já falto, sim, quando voo para longe com o que não dou conta. Quisera eu ser uma mãe plena de mim, sem o peso de tantos desejos, sem a sombra medrosa de nunca mais ter um gosto real de família. Visto você de sonhos e força. E o protejo com o cobertor que me falta. Choro a falta de um colo, mas só depois de colocar você na cama. Antes de pensar ou sentir, sou sua mãe. Posso até não viver em mim, mas você vive. Antes de ser eu, sou mãe.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Cuidado, Mamãe, eu sou perigoso.

Hoje peguei você tirando o protetor de tomada. Com a boca.